De acordo com dados do site UTIs Brasileiras, que registra informações de Unidades de Terapia Intensiva do Brasil, a taxa de mortalidade dos pacientes com covid e que recebem ventilação mecânica chega a 71,8% nos hospitais públicos e a 63,2%, nos particulares.
Mesmo com números altos, a psicóloga do Hospital Santa Catarina, Ana Carolina Ratajczyk Puig enfatiza que o procedimento tem de ser associado à busca pela vida. “Tentamos trazer o paciente para o momento presente. O tubo não quer dizer que ele vai morrer, ao contrário, é uma ação e uma busca para a vida”, afirma a profissional.
Na grande maioria dos casos, as pessoas são avisadas sobre o procedimento. Médicos e psicólogos concordam que é fundamental a conversa e a explicação do que acontecerá. “O medo é ligado ao não controle da situação. Para lidarmos com isso, trazemos a informação, o acolhimento, o vínculo com a equipe. Mostramos que tudo bem ele sair do controle por um tempo para os profissionais cuidarem dele”, diz Puig.
A relação de confiança é fundamental no dia a dia dos hospitais. “Criamos um lastro com o doente e fazemos pactos para que ele perceba os sintomas do próprio corpo. Quando isso acontece no pronto-socorro, é mais difícil. Mas a orientação é se apresentar pelo nome, dizer sua função, reconhecer o nome do paciente e explicar o que vai ser feito. Porque, na verdade, recebemos uma procuração para cuidar da vida da pessoa”, salienta Bader.
A alta transmissibilidade da covid ainda deixa os doentes completamente afastados dos familiares, o que dificulta a manutenção da saúde mental. “Quando a pessoa está internada, veste uma roupa que não é dela, num ambiente que não é dela, com pessoas que ela conheceu agora. Mesmo sendo pessoas que estão lá para cuidar dela, ela demora para entender. A família é uma representação do que ela é lá fora e uma esperança que ela volte a ser o que ela é fora do hospital”, conta a psicóloga do Hospital Santa Catarina.
Por isso, os pacientes estão liberados para usar celulares, mesmo dentro das UTIs. “Autorizamos que os pacientes fiquem com os celulares, façam chamadas de vídeo e se possível um médico acompanha. É difícil: isolamento, medo de morrer e longe de quem ama”, exalta a médica Mariza Loesch.
É importante lembrar que todo processo de intubação é feito com os pacientes sedados. Quando há tempo, após avisar a todos. Isso faz com que o procedimento seja menos sofrido e dolorido. Enquanto está intubado, o paciente está dormindo. Após o retorno, quase ninguém lembra dos dias de sedação.
“Eventualmente acontecem reminiscências, fatos sensoriais do momento. Tive uma paciente, não pós-covid, que passou muito tempo intubada e a irmã dela fazia massagem nas pernas dela, para ajudar na circulação. Após recuperação, ela teve muito sonhos ruins, mas disse que sentia um cheiro doce. Como a irmã estava junto na sessão, ela lembrou do creme de pêssego que usava durante a massagem. A partir daí trabalhamos para ela se livrar do trauma do tubo. Infelizmente, na fase atual da pandemia não conseguimos ter esse acompanhamento tão grande”, finaliza Patricia, da Rede D’or.
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