24/12/2015
Por Danilo Evaristo em
NotasJosé Eduardo, o menino que tem medo de polícia

Foto: Valéria Lima
Por Cezar Alves – O menino José Eduardo da Silva Rocha tem 8 anos e sempre que um policial se aproxima, seja a pé ou em uma viatura, ele corre desesperadamente, geralmente chorando, para se esconder. Como mora em área periférica, na zona norte de Mossoró, quase sempre se esconde no mato e quando retorna, está todo aranhado. A cena se repete sempre que a viatura policial passa perto de sua casa. “Se aparecer um homem bem vestido usando óculos escuro, a carreira é grande do mesmo jeito. Ele morre de medo da polícia, seja estes homens fardados ou não”, revela a mãe do garoto, a doméstica baraunense Maria Damiana da Silva, de 50 anos.
Damiana tem menos de um metro e 60. É morena e magra. Já foi incrivelmente magra há 6 anos, quando esteve internada com pneumonia e tuberculose no Hospital da Polícia Militar, em Mossoró RN. Damiana conta que foi salva do Hospital da Polícia por um “anjo” branco (técnica de enfermagem), de Areia Branca, de quem não lembra o nome. Disse que perdeu muito peso por que passou 18 dias só tomando sopa uma vez ao dia. “Eu achei que ali seria meu fim. As pessoas ficavam impressionadas com minha magreza, tiravam fotos, mas não me davam comida”.
A técnica de enfermagem a levou para o Hospital Rafael Fernandes, em Mossoró, para tratar da tuberculose. “Lá me deram atenção, comida e uns remédios. Fiquei boa e voltei a trabalhar, mas aí não consegui mais emprego nas casas. Como não tenho mais marido, fui juntar latinhas e garrafas plásticas nas casas”, narra Maria Damiana, enquanto José Eduardo sai em disparada mais uma vez para o seu “esconderijo de policiais” preferido: “debaixo dos braços da mãe”.
Era a repórter Valéria Lima que se aproximava de óculos escuro e com máquina fotográfica para registrar a entrevista numa sombra de árvore na Rua Amaro Duarte, no bairro Nova Betânia. Ele já imaginava que era uma policial. Convencido que não se tratava de um policial, Eduardo, meio desconfiado, chegou a trocar algumas palavras com a jornalista, que oferecia ao garoto a possibilidade de ver a fotografia dele na câmera. Ficou sorridente quando viu. Eduardo é o caçula dos seis filhos de Maria Damiana, que ganha a vida com uma espécie de carroça pelas ruas de Mossoró catando latinhas de refrigerante/cerveja e garrafas plásticas para vender após a morte de seu marido. Quando o dia é bom, fatura R$ 8 reais. Às vezes, passa um pouco de dez reais. Soma este valor ao que as pessoas das casas lhe dão todo dia.
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